28 de setembro de 2016


Hoje é um dia de preguiça…

O céu está nublado e o meu corpo pede-me um dia de outono, como se estivesse em Portugal. Afinal o mês de setembro está mesmo a terminar.

A diferença é que aqui em Cali, onde estou agora, o calor abafa desde as primeiras horas da manhã e a única coisa que me fala de outono é o cinzento nublado do céu… Aliás, por cá, não existem quatro estações. Ou estamos em época seca ou em época de chuvas. A temperatura mantém-se sempre estável num calor que prende muitas gotinhas de água salgada à superfície da pele.

Decidi que hoje é um bom dia para me sentar à pequena mesa do quarto do hostel e entrar num registo de recordação. 

Recapitulo. Viajo na memória e regresso ao primeiro dia em que entrei na Colômbia. Mentalmente, e de coração, volto a Cartagena. 





Recordo o calor, as muralhas, o estilo colonial e as pessoas de pele negra. Gostei muito da cidade, da alegria e da música dos costeños e até de cada contraste (sempre tão evidentes nas cidades da América Latina). Contrastam aqui os ricos e os pobres, os bairros locais e os turísticos, a vida real para tantos e o luxo que poucos alcançam a ter. Viajar de bicicleta é também uma forma de contactar com as diferentes perspetivas e vivê-las na pele, nos olhos, no pensamento e no sentir… No questionamento e na abertura de mente.

De Cartagena segui, ainda na companhia do Tiago, para Barranquilla. Foram dias de intenso calor. A estrada era pouco exigente e isso ajudou-nos a gerir o esforço dos pedais. Falando com sinceridade, eu agarrava-me à ideia de que seria em Barranquilla que a minha bicicleta iria voltar para casa e seria lá também que a minha viagem de mochila iria começar, numa leveza e ritmo diferentes.

Sabia de antemão que teria saudades da viagem que a bicicleta permite. 

Sabia, ainda, que o facto de prosseguir sozinha seria um desafio imenso para mim. Sabia que estava com medo e esforçava-me por aceitá-lo e não fugir dele.

Sabia que muitas coisas iam mudar e não sabia o que me esperava.

Sentia-me oscilar entre uma esperança, embrulhada em deslumbramento e curiosidade, e o pânico das incertezas num salto para o desconhecido.

Quando chegámos a Barranquilla, encontrámos os amigos de Portugal que vieram passar férias à Colômbia e a quem eu pedi para transportarem a minha bicicleta, junto com a sua bagagem, no regresso a casa.


Foi um encontro de corações. No abraço demorado chegaram as lágrimas quando senti bater, tão perto do meu, um coração querido e familiar.

Depois deste encontro, eu e o Tiago, fomo-nos preparando, cada um à sua maneira, para continuar a viagem de forma individual. Partilhámos os nossos medos e angústias um com o outro e trocámos votos de confiança mútuos. Afinal, cada um sabia que estava no caminho certo e só podíamos prosseguir em confiança, ainda que sentíssemos que o desafio se pousava numa fasquia bem elevada.

Quando nos despedimos, os corações apertaram-se, o nó na garganta cresceu e um novo caminho se abriu para o desbravarmos em curiosidade e esperança.

Começava ali a minha viagem sozinha. No momento certo e quando era para ser. Num país onde me tenho sentido abraçada e acarinhada mesmo quando me confronto com a estranheza dos locais quando digo que viajo sozinha.

Éramos agora dois viajantes que aprenderam um com o outro a arte de andar em rumo itinerante. 

Éramos agora dois, onde antes tínhamos sido um, que sabiam que a história imaginada se estava a reescrever entre corações apertados e vontades de descoberta ampliadas.

Para onde íamos na continuação da viagem?

Eu, de Barranquilla segui para o norte e parei perto de Palomino, uma povoação pequena e relaxada na costa das Caraíbas. 

Fiquei uns dias, a saborear o sol e a tranquilidade e parti em seguida para Riohacha com o objetivo de explorar as areias do deserto da Guajira, na parte mais a nordeste da Colômbia e encostada à vizinha Venezuela.

Enquanto isso, o Tiago estudava a altimetria do terreno montanhoso procurando seguir a linha sinuosa dos vales verdejantes.

A Guajira foi a minha primeira surpresa. Lá, a harmonia espelha-se num casamento singular entre o deserto e o mar. A areia e o sal. O vento forte e as ondas suaves.








Passei três dias e duas noites no território do povo Wayuu, os indígenas da região.

Dormi nas rancherias, os casarios deste povo, e deslumbrei-me com as paisagens surreais.

No deserto também me confrontei com uma realidade diferente e desconhecida. Os Wayuu, que antes eram um povo isolado neste canto norte da Colômbia, procuram agora aproveitar o turismo como uma das suas fontes de subsistência. 

Não só providenciam hospedagem e restaurantes, como disponibilizam gasolina barata que chega (sabe-se lá como) da Venezuela e aproveitam todas as oportunidades para conseguir ofertas extra, como bolachas e doces para as crianças e dinheiro que fazem com a venda de frutas e mariscos, à beira dos caminhos.

O deserto encheu-me de momentos que se transformaram em lindas recordações mas que também me invadiram em forma de questões sobre a vida (e dificuldades) dos Wayuu. Às vezes tenho vontade de ficar mais tempo nos lugares para compreender melhor as vivências, as histórias, as aventuras e desventuras de quem lá vive.

Algumas questões consigo exteriorizar… outras ficam cá dentro a ganhar forma e talvez nunca saiam em busca de uma resposta.

No regresso a Riohacha refiz as malas e rumei a sul. Descobri a cidade industrializada de Bucaramanga e pausei lá um dia antes de conhecer um lugar de encanto chamado Barichara. 

Comecei assim a serpentear pelos Andes, correndo a toda a velocidade por caminhos desnivelados e curvas apertadas.

Barichara é daqueles lugares que me preenchem. Senti lá cheiros da minha infância e retomei as caminhadas que tanto gosto de fazer. Lembrei-me de mim e reencontrei-me em momentos de silêncio e contemplação.




Percorri as ruas devagar, senti as paredes e sorri perante as cores das portas e das janelas. Tudo me chamava e me recordava a magia de viajar por um lugar que mais parecia retirado de um conto de fadas.
Me enamoré de Barichara!

Daqui, o caminho fez-se longo até Medellín e em seguida Bogotá.

Reencontrei-me com o Tiago em Medellín e viajámos juntos de autocarro até à cidade capital. Em ambos os lugares fomos recebidos e acarinhados por portugueses que lá vivem e as visitas a estas cidades merecem um post só para elas que escreverei em breve.

Apesar de quase sempre com um trânsito infernal e muita contaminação, ambas nos deram a conhecer os seus encantos e o facto de termos usufruído da companhia de pessoas do nosso país, deu àqueles lugares uma magia especial.



Depois de Bogotá, voltámos a despedir-nos, um do outro (e voltaram os sentimentos ambivalentes, bem como a certeza de que cada um prosseguirá a sua viagem individual rumo a sul). Quando nos voltaremos a ver foi a questão que permaneceu em cadência suspensiva, navegando no nosso pensamento. 

O meu caminho prosseguia para a região do Eje Cafetero, a zona dos melhores cafés colombianos.

Não me interessava propriamente ficar pelas cidades principais e, por isso, escolhi visitar duas povoações pequeninas e acolhedoras perdidas nas encostas andinas.

A primeira foi Salento. Para além de me deixar cativar pelas suas ruelas, cheias de cor, fui ainda perder-me no Valle de Cocora que alberga, ali perto, as palmeiras mais altas do mundo e que são as árvores representativas da Colômbia.

A caminhada, de 4h30, que fiz pelo Valle de Cocora foi tão especial que necessariamente lhe teria de dedicar um texto inteiro, publicado aqui no América a Pedal (Link para o post: Salento e Valle de Cocora).





Também aproveitei para visitar uma quinta de café, bem pequena e familiar onde a produção se faz de acordo com princípios de agricultura biológica e toda a preparação do café é feita através de processos artesanais, até estar finalmente moído e embalado.

Gostei muito da energia de Salento. É um lugar que recentemente começa a atrair o turismo mochileiro e onde se passam uns dias calmos e bucólicos.

Daqui, segui diretamente para Pijao e, esta sim, é uma povoação retirada do circuito turístico habitual. Foi-me recomendada por um senhor alemão que conheci em Barichada e, em pesquisas na internet, descobri que é o único lugar na Améria Latina onde se promove o Movimento Cittaslow.

Fiquei hospedada na casa da promotora e impulsionadora desta filosofia de vida, em Pijao, e adorei conhecer os seus princípios que apelam a uma redução do ritmo de vida demasiado acelerado que levamos atualmente, em tantos lugares. O Cittaslow recorda-nos os benefícios de adotarmos um estilo de vida mais lento, ampliando o conceito às dinâmicas das comunidades, sejam elas relacionais ou comerciais.

Um livro que explica bem esta forma de vida é o “In Praise of Slow”, de Carl Honoré, para quem esteja mais curioso sobre o Movimento.

Posso dizer que vivi em pleno este elogio à lentidão em Pijao. Lá, tive igualmente a oportunidade de acompanhar a equipa de guias da câmara municipal numa caminhada tranquila pela serra e de ainda ser entrevistada, na condição de viajante, para o canal da televisão regional, o Tele Café, que tinha como objetivo dar a conhecer a região e o conceito Cittaslow.



Finalmente depois de muitos dias a respirar ar fresco e puro, regressei à cidade desde onde escrevo agora. 


Cali, a capital da Salsa. O lugar onde os caleños (assim se chamam os habitantes daqui) orgulhosamente promovem a cultura da dança e não há “alminha” que não saiba bambolear-se ao som deste ritmo tão vibrante.

Como eu adoro salsa e há uns anos aprendi a dançar um bocadinho, aqui tinha de ir ver como a música e a dança aquecem ainda mais a noite caleña. Aproveitei a aula aberta do Baile Social Club na Plazoleta Jairo Varela e fui em seguida espreitar o baile no bar La Topa Tolondra.

Foi uma experiência que me permitiu acrescentar mais um “check” na lista de coisas que gostaria de experimentar nesta viagem:
- Dançar Salsa em Cali: Check! :)

Apercemo-me agora de como este texto já vai longo... E conto quantas palavras já escrevi sobre esta Colombia Hermosa, de paisagens verdejantes, encostas íngremes e férteis e ritmos quentes e sensuais… Tantas recordações para acrescentar à bagagem. Tanto e tão bom este caminho desbravado por este país…

Ainda tenho alguns dias para conhecer uns lugares mais a sul. Gostaria de passar por Popayán e Ipiales. Vamos ver se o plano se mantém ou se o improviso da viagem me conduz de outra forma.

Até já! ;)

Informações e Links:

Hospedagem:
Cartagena - One Day Hostel; 80.000 pesos/ noite (quarto privado para 2 pessoas com AC, wc partilhado, pequeno almoço incluído): www.facebook.com/hosteloneday/
Barranquilla - Hotel Boston; 70.000 pesos/ noite (quato privado para 2 pessoas com AC, wc privado, pequeno almoço incluído)
Palomino - Hostel El Spot; 30.000 pesos/ noite (dormitório): www.facebook.com/Elspotpalomino
Riohacha - Hotel Plaza Roma; 70.000 pesos/ noite (quarto privado com wc): www.facebook.com/hotelplazaromariohacha
Bucaramanga - Hotel La Pera; 50.000 pesos/ noite (quarto privado com wc e pequeno almoço): www.laperahotel.com/
Barichara - Hotel Casa Aparicio López; 60.000 pesos/ noite (quarto privado com wc e pequeno almoço incluído): www.casaapariciolopez.com/
Salento - Hostel Tralala; 60.000 pesos/ noite (quarto privado com wc partilhado): www.hosteltralalasalento.com/
Pijao - Pequeña Casa Pijao; 40.000 pesos/ noite (quarto privado com wc e cozinha partilhados): www.facebook.com/Hotel-La-Pequena-Casa-Pijao
Cali - Hostel La Iguana; 50.000 pesos/ noite (quarto privado com wc partilhado): www.iguana.com.co/

Autocarros:
Barranquilla - Palomino: 20.000 pesos
Palomino - Riohacha: 8.000 pesos (aproximadamente)
Riohacha - Bucaramanga: 75.000 pesos
Bucaramanga - Barichara: 18.000 pesos
Bucaramanga - Medellin: 55.000 pesos (aproximadamente)
Medellín - Bogotá: 60.000 pesos
Bogotá - Pereira: 52.000 pesos
Pereira - Salento: 7.000 pesos (aproximadamente)
Salento - Armênia: 6.000 pesos (aproximadamente)
Armênia - Cali: 22.000

Excursão pelo Deserto da Guajira; 450.000 pesos, para 3 dias e 2 noites com tudo incluído (transporte, guia, refeições e alojamento).

Salsa em Cali:
Segunda-feira - Aula Aberta na Plazoleta Jairo Varela, das 19h às 21h (grátis) e Noite de Salsa no bar La Topa Tolondra, das 20h às 1h (custo de entrada 6.000 pesos).

NOTA: Todas as informações e valores dizem respeito a setembro de 2016.


2 comentários:

  1. I so enjoy reading your journals. Very sensuous. I am pleased that I'll be in your footsteps, somewhat, but in reverse sequence, very soon.
    Best to you

    Dave

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  2. Olá!! Que legal seu relato. Eu tb vivi com uma comunidade indígena na Guajira, como se chamava a rancheria que vc foi? Abraços, muito legal seu blog!

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