23 de março de 2016

Não sabemos quantas vezes nos despedimos desde que iniciámos a viagem.

Foram muitas! E, de quase todas, lembramos a vontade de ficar… mais um pouco… de não querer ir já.

É admirável como os laços se fortalecem em tão pouco tempo. Como nos ligamos a cada coração. Como cada lugar fica tatuado no nosso corpo e cada pessoa escreve linhas únicas e especiais no caderno de viagem da nossa alma.

Fascina-me esta fusão de emoções. O querer ficar e, ao mesmo tempo, o saber que é tempo de partir.

Foi com este conflito a galopar no peito que deixámos Puebla para trás. A cidade onde ganhámos mais uma família.


Fomos mais fortes na despedida porque resistimos às lágrimas que nos queriam rolar pela face. Mas fomos, também e felizmente, mais frágeis, nesta vulnerabilidade que nos abre para receber dos outros. Sabemos que é nela que encontramos a confiança que intensifica e embeleza a nossa jornada nesta interação com cada pessoa. E que bom que foi conhecer a Ixchel, o Sérgio, a Hatzibe, o Armando e o Toño!

Aprendemos que ser viajante é ficar próximo de quem cá vive, é construir conversas a várias vozes e ouvir com atenção a humanidade de cada pessoa. Descobrir, tantas vezes, que há muito da nossa história na história dos outros e que há diferenças que talvez nunca consigamos compreender ou mesmo aceitar mas com as quais podemos crescer.


Saímos de Puebla acompanhados pelos nossos queridos anfitriões. Alguns membros da família foram de bicicleta e outros preferiram ir no carro de apoio. Connosco, seguiram também a Amanda e a Susan. São duas estado-unidenses que conhecemos em Portugal e que se juntaram a nós nas suas férias, para pedalarmos juntos até Oaxaca.

Sentámo-nos no selim, depois de uma semana de pausa e voltámos à dinâmica própria das estradas mexicanas.

Seguimos viagem. Juntos. Ao nosso ritmo… bem devagar!


Passaram três dias e foram esforçados.

Pedalámos mais do que a nossa média habitual, o tempo aqueceu muito e o nosso corpo começou a reclamar. Tinha razão! Puxámos por ele mais do que seria conveniente…

Tínhamos voltado à montanha e a paisagem, que se tornou mais verde, beijava-nos as pálpebras. A frescura do cenário contradizia o suor quente que se acumulava na pele.


Pingávamos!

O calor chegou de repente e nem sabemos de onde veio… Quando demos conta, os dias frescos que tivemos em Puebla, transformaram-se num violento calor tropical. O nosso corpo aquecia, a água que transportávamos transformava-se em chá e sentíamos que nos desidratávamos a cada pedalada.  

Em esforço, continuámos lentamente. Levou-nos o caminho até ao Estado de Oaxaca, o 9º estado mexicano que as nossas bicicletas conhecem.


No quarto dia de viagem as subidas foram mais exigentes. O calor impôs-se tão forte que parecia que o sol brilhava só para nós.

Durante a manhã ainda conquistámos algumas dezenas de quilómetros. Mas quando o sol subiu a pique e as nossas pernas recusavam-se a avançar…


Conversámos com a Amanda e a Susan e, entre os 4, decidimos que não era muito inteligente gastar tanta energia para pedalar com aquele calor. Ponderámos opções e escolhemos pedir boleia ou apanhar um táxi até à próxima cidade. - O que aparecesse primeiro! - Já estando lá, poderíamos pensar melhor na forma de aliviar o desafio dos próximos dias que prometiam muita subida.

Fomos para uma sombra e esperámos…

No primeiro táxi que passou já não cabíamos. Estes táxis são carrinhas de caixa aberta, que funcionam como autocarros e onde cabem pessoas, bagagens e tudo o que mais possam imaginar.

A estrada era pouco movimentada mas, por acaso ou por sorte, apareceu um táxi vazio! Coubemos todos, com as bicicletas e os alforges. Tudo (mais ou menos) bem acondicionado! Perguntámos ao Carlos (o dono do táxi) até onde nos podia levar e, depois de regatearmos o preço, acabámos por lhe pedir que nos deixasse uns 45 km de Oaxaca. 


Quando vimos como subia a estrada e quão escassas eram as povoações, ficámos ainda mais felizes com a nossa escolha. Há partes do caminho em que o custo vai para além do benefício e soube-nos bem aliviar o peso do que seriam dois ou três dias de muito calor e subida…

No dia seguinte, já nas bicicletas, avançámos até Oaxaca e a aproximação à cidade foi stressante, como são quase todas as chegadas às cidades grandes mexicanas. Mergulhámos na confusão do trânsito e focados no objetivo de chegar, só parámos perto do centro para confirmar no mapa a direção a seguir.

Superámos o ruído, misturámo-nos no movimento frenético, insultámos mentalmente (e não só) os loucos motoristas dos autocarros e dos táxis e… finalmente, estacionámos na praça central.

Sentámo-nos e… respirámos fundo! Chegámos!

A cidade estava cheia. A semana santa aproxima-se e Oaxaca é conhecida pelas suas festividades religiosas. Somos mais uns turistas entre a multidão. Chamamos mais a atenção porque temos bicicletas super carregadas mas somos iguais a todos os outros que se misturam na música estranha dos diversos idiomas todos falados ao mesmo tempo.


Esta é uma das cidades mais turísticas que visitámos no México. Demorámos para encontrar um alojamento dentro do nosso orçamento mas conseguimos um hotel simples e simpático perto do centro. Só nos incomoda o sino da igreja ali do lado que, de forma insistente, nos serve de despertador, cada dia, às 7h da manhã.

Oaxaca é uma cidade cheia de História. Colonizada e evangelizada a partir do século XVI. Mostra-nos nas suas ruas e recantos as influências dos diferentes povos que a edificaram. É uma cidade que apetece conhecer.

Vamos ficar uns dias e visitá-la … sem pressa!





2 comentários:

  1. Até eu fiquei a transpirar ;) :)
    Continuação de boa viagem. Eu continuo por aqui à vossa boleia.
    Tudo de bom.

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